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sábado, 7 de outubro de 2017

António de Macedo (1931-2017)



Faleceu no passado dia 5 de Outubro o realizador António de Macedo. Foi ele um dos poucos realizadores portugueses a prestar atenção à música que os mais novos faziam e a saber explorá-la de acordo com as novas linguagens cinematográficas. São os Quinteto Académico os escolhidos para fazer a banda-sonora do seu primeiro filme de longa-metragem, “Domingo à Tarde” (1965). Isto ainda antes de terem gravado o primeiro disco. 


Seriam também os Quinteto Académico a fazer a banda-sonora de “Sete Balas para Selma”. Aí acompanham Florbela Queiroz que canta duas músicas que têm a particularidade das letras terem sido escritas por Alexandre O’ Neill e de serem filmadas a cores.


Percebe-se, através destes dois filmes, alguns dos círculos que operavam então em Lisboa, o que de novo se estava a fazer, outras coisas que estavam a acontecer… 


Capa e contracapa da revista Almanaque, 1960.

Como, aliás, se pode ver também nas sequências, mais ousadas, livres até, que António de Macedo realiza para o “Cine Almanaque”, um jornal cinematográfico da responsabilidade de António da Cunha Telles.

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Infelizmente o realizador ainda precisa de uma apresentação. Resumidamente, antes de ser cineasta, António de Macedo desenhou jóias, trabalhou como arquitecto na Câmara Municipal de Lisboa e, com apenas vinte e poucos anos, em 1959, aventura-se na sua primeira experiência cooperativa – juntamente com dois amigos constitui, o Clube Bibliográfico Editex, onde edita o seu “A Evolução Estética do Cinema”, um livro seminal, cujo título é explícito relativamente ao conteúdo. Ao livro seguem-se trabalhos como crítico em revistas e jornais.


Em 1961, finalmente, realiza as primeiras experiências cinematográficas: “Ode Triunfal” (1961) e “A Primeira Mensagem” (1961). Em 1963 realiza “Verão Coincidente”, com base num poema de Maria Teresa Horta. Dois anos depois estreia o seu “Domingo à Tarde” (1965), uma adaptação do livro de Fernando Namora e um dos filmes fundadores do Cinema Novo Português. Passados outros dois anos, realiza um filme de aventuras surpreendentemente pop, tanto divertido como inteligente, “Sete Balas para Selma” (1967). 


Logo de seguida monta o que descreve como um “filme de desespero”, “Nojo aos Cães” (1970). Este é proibido pela censura portuguesa e premiado no Festival de Benalmadena. 


 Segue-se “A Promessa” (1972), baseado no livro homónimo de Bernardo Santareno, que será o primeiro filme português a ser seleccionado para competição em Cannes e o vencedor do primeiro prémio do festival de Belgrado. Em Portugal, é censurado. Entre estas longas-metragens, realiza ainda curtas-metragens publicitárias, mais experimentais, arriscadas, livres, até. É o caso dos jazzísticos “Nicotiniana” (1963) e “5 Temas para Refinaria & Quarteto” (1971), do quase cruel “Cenas de Caça no Baixo Alentejo” (1973) e de outros mais.

Mais do que um cineasta, António de Macedo tem um papel central nos desenvolvimentos do cinema em Portugal. É ele, juntamente com António da Cunha Telles, um dos membros fundadores da primeira cooperativa de cinema, o Centro Português de Cinema, no activo a partir de 1969. Em 1974, depois de uma primeira e breve carreira como docente, funda a cooperativa Cinequanon. Esta funcionaria durante duas décadas e é sob a sua alçada que, nos anos do P.R.E.C., vai registar o Portugal em inúmeras curtas-metragens. Estas culminam no polémico “Fátima Story” que, por sua vez, dará origem ao não menos polémico “As Horas de Maria”, de 1976, estreado apenas em 1979 e no qual nos vamos centrar neste artigo.



Enquanto espera a estreia de “As Horas de Maria”, António de Macedo realiza “O Princípio da Sabedoria” (1975), que não consegue estreia comercial, tornando-se assim prenúncio da condição de marginal que, progressivamente, seria imposta ao autor, e “O Príncipe com Orelhas de Burro” (1980). Paralelamente realiza também algumas curtas-metragens onde explora a cultura popular portuguesa, deixando claro o seu interesse pelo fantástico. Isto depois de ter realizado um documentário sobre OVNI’s em Portugal, “Encontros Imediatos do Nosso Grau” (1979), para a RTP. Já nos anos 80, António de Macedo troca, definitivamente, a política pelo esoterismo, e investe num cinema com preocupações mais humanas, como se verá em “Abismos da Meia Noite” (1983) e “Os Emissários de Khalôm” (1987), longas-metragens de ficção científica que levariam a que fosse descrito como um “anarco-misticista”.

Apesar de premiado, e apesar dos seus filmes terem sido, na sua maioria, sucessos de bilheteira, a partir da segunda metade da década António de Macedo enfrenta problemas de financiamento que o impedem de filmar. Isto faz com que se dedique, a partir daí, aos seus estudos, pessoais e académicos, tal como ao ensino e à escrita. Assim, depois de em 1961 ter editado o mais filosófico “Da Essência da Libertação”, retoma o conto que deu origem ao filme “Os Emissários de Khalôm”, e colige-o, com outros, em “O Limite de Rudzky” (1993), volume que marca o início de uma prolífera carreira literária.

A tudo isto, e estou a ser breve, acrescente-se que embora raramente seja destacado como músico, António de Macedo escreveu mais de cem peças. E que foi ele um dos primeiros portugueses a gravar música concreta ou experimental, embora apenas em película e nunca em vinil – oiçam-se, por exemplo, algumas sequências de “Domingo à tarde” (1965), ou a curta “Alta Velocidade” (1967), para se perceber o trabalho deste arquitecto sonoro.


Em 2016, António de Macedo regressa ao grande ecrã, com a remontagem de um projecto antigo, agora intitulado “O Segredo das Pedras Vivas”, e como alvo de um documentário realizado por João Monteiro intitulado “Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo”.

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Sobre António de Macedo ver o catálogo publicado em 2012 por ocasião da retrospectiva na Cinemateca Portuguesa. Mozos, Manuel (Org.), O Cinema de António de Macedo, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 2012.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

"Pão, Amor e... Totobola!"

"Pão, Amor e...Totobola!" é um filme de Henrique de Campos que tem duas curiosidades: 

-Uma sequência num snack-bar onde se podem ver jovens a dançar.




 



- E Zeca do Rock é um dos actores secundários. No entanto, segundo o próprio a maioria das cenas onde entrou, a fazer de leader de um gang de teddy boys, foram cortadas na versão final. 

Além disso, o filme teve direito a banda-sonora editada em disco e aí pode-se ouvir, além Maria Helena e o Conjunto de Hélder Martins, Zeca do Rock a cantar o seu "Twist para Dois". Seria esta a sua última gravação. Depois disto partiria para Inglaterra onde viveria a Beatle-mania em primeira mão.



Como curiosidade acrescente-se que em 1987 os Ena Pá 2000 gravam uma música com o título do filme para o lado B do seu primeiro single.


Pode ser ouvido aqui, numa versão ao vivo num concerto de 2016:


quinta-feira, 27 de abril de 2017

"Os Hippies e os Gangsters"

É já na década de 70 que estreia o filme "À Tout Casser" de John Berry que em português terá o nome "Os Hippies e os Gangsters". Dez anos depois de ter "chegado" a Portugal, Johnny Hallyday continuava a ser um nome de referência apesar de já quase não editar discos por cá.



domingo, 9 de abril de 2017

"Dançando ao Sol"

Antes da "invasão britância" encabeçada pelos The Beatles, houve uma primeira investida liderada por Cliff Richard e pelos The Shadows. Em Portugal foram muito bem recebidos dando origem a uma série de "conjuntos tipo The Shadows", como então denominaram os grupos que tocavam instrumentais surf. O próprio Cliff Richard teve algum culto não só por causa da músicas mas também porque, à semelhança de Elvis Presley, foi actor em vários filmes. Em 1964, ele e os The Shadows, entram em "Wonderful Life" de Sidney J. Furie. Por cá o filme estreia com o título "Dançando ao Sol" e a revista Plateia publica um número especial inteiramente dedicado ao filme, com algumas páginas a cores, algo raro na altura.

 
 


sexta-feira, 3 de março de 2017

"Operação Dinamite" (1967)


“Operação Dinamite” é um filme realizado por Pedro Martins com Nicolau Breyner, Armando Cortez, Glória de Matos, Simone de Oliveira, Helena del Rubio, Eduardo Cortez, Francisco Nicholson, Henriqueta Maya, Carlos José Teixeira. Rodado entre Junho e Agosto de 1966, em Lisboa, Cascais, Arrábida e Luanda. o filme estreia a 19 de Abril de 1967 no Cinema Odeon em Lisboa.


José de Matos-Cruz, no seu livro “O Cais do Olhar” (1999) descreve o enredo:

«A temerária missão dum agente secreto americano, Max, que desafia todos os perigos no decorrer duma luta sem tréguas, para se apoderar dum "dossier" secreto, roubado dos arquivos do Pentágono, e que se suspeita ter caído nas mãos dum bando de espiões que actuam em Lisboa, e pretendem levá-lo para o Oriente...»

Com argumento de Francisco Nicholson, “Operação Dinamite” é uma comédia sem piada que parodia os filmes de acção e espionagem então em voga - 007 e todos os seus sucedâneos - sem ter, contudo, qualquer força, entusiasmo ou mesmo emoção. Saldanha da Gama, no Diário da Manhã, só poderia estar a gozar quando descreve «o desempenho de Nicolau Breyner refreado na sua exuberância e que na pele de um agente secreto se mostra tão à vontade nas passagens amorosas como nas cenas de rija pancadaria…»



A banda-sonora é da responsabilidade de Eugénio Pepe e do conjunto Rueda+4. Estas viriam a ser editadas sob o formato de EP na Riso e Ritmo Discos, de Francisco Nicholson. Além disso ouve-se ainda Simone de Oliveira e o Duo Ouro Negro.


É precisamente na música que reside um dos pontos de interesse deste filme. Não nas dos Rueda+4, que não são particularmente interessantes, mas na sequência em que se vê e ouve o Duo Ouro Negro a tocar no “Sanzala”. Graças a este filme, ficámos com um registo cinematográfico tanto do Duo a tocar ao vivo como desse “Restaurant Typique Dancing” do Campo Grande, como descrevia publicidade da época, de “ambience totalmente Africaine”.

Apesar de Lisboa e arredores terem sido, efectivamente, palcos de manobras de espionagem de contornos internacionais especialmente durante a II Guerra Mundial, tal facto raramente foi explorado pelo cinema português. Ao “estilo internacional” que este género de filmes exige sobrepôs, quase sempre, o “estilo nacional” do humor à Parque Mayer e do romantismo barato e moral. Fizeram melhor trabalho escritores e realizadores estrangeiros assim como António de Macedo no seu “Sete Balas para Selma”.

Para terminar, acrescente-se que o lucro do filme, segundo a publicidade da época, destinou-se ao “Fundo de auxílio às famílias dos marinheiros mortos em campanha no Ultramar”.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Florbela Queiroz / Sete Balas Para Selma

Poucas vezes o cinema português soube olhar para a cultura pop. António de Macedo foi dos poucos fazê-lo. Para o filme "Sete Balas para Selma" foi buscar o Quinteto Académico e Florbela Queiroz para os as sequências musicais. Pelos vistos, não correu bem.


Uma das sequências do filme. Música do Quinteto Académico e letra de Alexandre O'Neill.


segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Os Verdes Anos" (1960-1963): Parte 8



O segundo destes novos eventos é organizado pelo Cinema Roma, em Lisboa, para promover o filme Mocidade em Férias (Summer Holiday,1963) de Peter Yates com Cliff Richard e os Shadows. Intitulado Concurso de Conjuntos Portugueses do tipo dos The Shadows este ocorreu ao longo de Setembro de 1963 e participaram um total de 22 conjuntos. Tendo como “critério de avaliação a semelhança com os Shadows” chegaram à final, realizada no dia 4 de Outubro, os Panteras do Diabo, Nelo do Twist e seus Diabos, Os Titãs, Daniel Bacelar e os Gentlemen e o Conjunto Mistério de Fernando Concha (inscritos como Mascarilhas).
 
(retirado de guedelhudos.blogspot.com)
Oriundos de Matosinhos, Os Titãs eram constituídos por Fernando Costa Pereira, João Lourival, Simões Carneiro e João Braga e gravam logo em 1963 o seu disco de estreia onde, em versões instrumentais surf, ou à Shadows, “há desde o folclore, representado pela Canção da Beira e Vira da Nazaré, até à balada de Coimbra”. Nesse mesmo ano vêem editado mais um EP onde está incluído o seu Tema para Titãs. Com carreira interrompida devido ao serviço militar, em 1967 anunciam o seu regresso com uma nova formação, que incluía José Lello no saxofone e voz, o que desde logo indiciava uma mudança no seu som. No entanto, é apenas dois anos depois, em 1969, que gravam aquele que seria o seu último EP. Um disco com uma consistência e maturidade quase raras em Portugal ao enveredar por sonoridades beat com toadas psicadélicas, desta vez cantando em inglês mas também fazendo uma versão de uma música tradicional de Miranda do Douro, Mira-me Maria (no original Mira-me Miguel). Separando-se pouco depois, José Lello ainda tenta uma carreira a solo antes de ingressar na política.

(retirado de underrreview.blogspot.com)
Formados a partir de ex-membros do Conjunto Nova Onda, o Conjunto Mistério são hoje conhecidos pela sua imagem de marca, o uso de mascarilhas. Constituídos por Luís Waddington, Edmundo Silva, Michel Mounier e António Moniz Pereira, tornaram-se rapidamente um dos mais famosos conjuntos de então, reconhecidos pelo seu "virtuosismo, experiência e simplicidade de meios empregados, não olvidando clara noção rítmica", como descreve o Diário Popular de então, e pela adaptação de musicas populares portuguesas, como Coimbra Menina e Moça, Alecrim aos Molhos e Oliveirinha da Serra. O Conjunto Mistério ficou também conhecido por ter acompanhado nomes tão diversos como Fernando Concha, Duo Ouro Negro e Dário de Barros. Com a entrada de Edmundo Falé para as vozes e Edmundo Silva a sair para os Sheiks, pelo Conjunto Mistério passaram ainda Mário Terra e mais tarde José Cid. Com estas alterações começa-se a assistir um afastamento do som “à Shadows” para aproximações aos Beatles. Mas o conjunto opta por terminar e alguns membros juntam-se para formar o que seria o Quarteto 1111.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Rock 'n' Roll em Portugal (1955-1959): Parte III


Zeca do Rock

É também nesse final dos anos 50, que José das Doures começa a aprender a tocar guitarra. Estreando-se em 1959 no programa Bom Dia de José Oliveira Cosme é lá que recebe a alcunha pela qual hoje é conhecido, Zeca do Rock. Influenciado pelo rock 'n' roll norte-americano de então, canta em inglês e em português e opta ao contrário de outros, por fazer as suas próprias músicas. É dessa altura que data Nazaré Rock, que viria a ser gravada para o seu primeiro disco. Editado em 1961 este acabaria por ficar conhecido não pela referida música mas por outra, Sansão foi Enganado, música hoje recorrentemente referida por ser aquela em que ficou registado o primeiro yeah! gravado em Portugal…

Embora, julgando pelo conteúdo do disco, tudo aparente ser inocente ou convencional o seu percurso musical não o foi. Considerado "aos olhos do governo fascista” como “um opositor declarado, uma figura perigosa, incómoda, rebelde, capaz de liderar a juventude, o que representava um perigo para o sistema", conforme conta em entrevista a João Aldeia para o site vilardemouros1971, Zeca do Rock viu-se então remetido para as emissoras privadas e, nunca mais podendo gravar, teve de se cingir ao circuito das actuações ao vivo.

Apesar de tudo a sua carreira como Zeca do Rock durou sete anos e além do referido disco ficou também registado no filme de Henrique de Campos Pão, Amor e Totobola (1964), onde faz de líder de gang de rockers e canta Twist para Dois. No entanto, apesar de dizer que deixa a música, o seu nome reaparece em 1970, quando Sérgio Borges e o Conjunto Académico de João Paulo adaptam a sua composição Aguarela Portuguesa sob o nome O Lavrador e, em 1972, quando os mesmos gravam God of Negroes. Escrita aquando da sua estadia na Guiné, onde Zeca do Rock chegou a ter um conjunto, esta é, nas suas palavras, «uma balada pungente, verdadeiro “negro espiritual”, como apelo derradeiro para a salvação de um povo inocente e infeliz, a quem mais ninguém parecia poder socorrer». Pertinente para os tempos que então corriam…