Mostrar mensagens com a etiqueta 1965. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1965. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marianne Faithfull "em Portugal"

Marianne Faithfull chega a Portugal por arrasto. É importada como mais uma rapariga yé-yé, embora inglesa. E vem junto com os Beatles. A versão que gravou de "Yesterday" é editada em Portugal em 1965, num EP com mais três músicas.


Apesar da imagem de menina angelical, que o próprio nome sublinha, esta é rapidamente destruída a partir do momento em que se associa aos The Rolling Stones. Pouco tempo depois já é descrita como "original e inquieta" para logo ser ignorada.


Marianne Faithfull só voltaria a ter alguma visibilidade neste país no início dos anos 80 quando é por cá editado o álbum "Broken English".

*

Com curiosidade acrescente-se que Derek Jarman realizaria vídeos para três músicas desse disco:



quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Os Verdes Anos" (1960-1963): Parte 6


Com chegada anunciada nas páginas da Plateia, Victor Gomes já tinha nome e carreira feita quando regressou a Portugal. Nascido em Lisboa aos quatro anos parte para Lourenço Marques com os seus pais. Começando na sua adolescência a frequentar os bares dos cais onde trabalhava – era na altura cargueiro -, foi nessa altura que tomou contacto com os novos sons americanos, do Elvis, Little Richard e Bill Haley. “Aquela era a nossa música, e eu dançava muito bem o rock, uma coisa instintiva que aprendi nos filmes. Inspirado, inscreve-se no concurso A Hora do Caloiro na Rádio Clube de Moçambique, com os seus Dardos, conseguindo logo ganhar o primeiro lugar. Imediatamente aclamado pela crítica, com apenas 18 anos, Victor Gomes torna-se um ídolo nacional. Percorrendo parte de África foi nessa altura contactado pelo actor Humberto Madeira que o aconselha a ir para Lisboa. Seguindo o seu conselho parte para Portugal, com apenas a morada do Café Lisboa. Aí, João Maria Tudella encaminha-o para os Gatos Negros, da Trafaria, na altura formados por José Alberto, na guitarra solo, Manuel Lixa, na guitarra ritmo, Jacinto Lixa no baixo e Quim Hilário na bateria, onde foi imediatamente aceite.

Estreando-se no Parque Mayer, num espectáculo de beneficência para o bailarino Fred, Victor Gomes e uns Gatos Negros carregados de aguardente entram no palco e em 20 minutos tornam-se famosos e contratados, por Vasco Morgado, para a revista Boa Noite, Lisboa. Pouco depois, participam, e vencem, o primeiro grande concurso de ritmos modernos realizado em Portugal, o acima referido Concurso do Rei do Twist. No concurso seguinte, de Conjuntos tipo The Shadows, embora tenha sido o eleito pelo público, o júri escolhe o Conjunto Mistério, uma vez que o critério de escolha era a similaridade com a referida banda inglesa. 


 Nessa altura, já Victor Gomes e os Gatos Negros eram conhecidos e percorriam o país em concertos que, conforme recorda numa entrevista ao Correio da Manhã, "era[m] uma loucura. Eu partia tudo. Todas as casas onde actuava abarrotavam de pessoas desejosas de me tocarem. Muitas vezes fui para o camarim todo rasgado e até em cuecas". No entanto a carreira com estes Gatos Negros foi curta, mais uma vez devido ao serviço militar que alguns membros tiveram de cumprir. Mas também por não terem assinado com a Valentim de Carvalho, uma vez que Victor Gomes se recusara a cantar versões portuguesas das músicas estrangeiras. 

(www.cinemaportugues.ubi.pt)
Ainda assim, no ano seguinte Victor Gomes contracena com Soledad Miranda no filme Canção da Saudade (1964) de Henrique Campos, onde faz de Tony Rocker, e canta uns twists em português (!), acompanhado por uns novos Gatos, agora Pretos. Em 1965 estes gravam ainda uma actuação para o programa Ritmos!, da RTP, e separam-se definitivamente depois disso. Victor Gomes em entrevista à Plateia constata, pertinentemente, que "em Portugal é impossível conseguir um conjunto sério de profissionais”. Decide por isso enveredar numa carreira a solo e tornar-se um artista de music-hall, abandonando o país que, segundo ele, não o soube receber nem dar valor. Antes de partir grava ainda o que seria o seu primeiro e único disco, Juntos Outra Vez, acompanhado pelos Siderais, que musicalmente já pouco tinha a ver com aquilo que o tornou conhecido, no principio da década. Actua no filme A Caçada do Malhadeiro (1969), de Quirino Simões. 

(retirado de guedelhudos.blogspot.com)
De volta a África estabelece-se em Moçambique e envereda por uma carreira como crooner. Nas décadas que se seguem, Victor Gomes vai pondo a música um pouco de parte e torna-se um mestre dos sete ofícios, fazendo de tudo, desde engordar gado na Rodésia a trabalhos em pedra no Algarve. 

Voltando à música apenas na década de 90, é nessa altura em que lança o CD Victor Gomes e o Regresso do Rei do Rock. A partir daí começa a fazer algumas aparições ao vivo esporadicamente, acompanhado pelas Gatas Loucas e a colaborar com os Ena Pá 2000. Em 2011 regressa também aos filmes, como actor na longa-metragem Calor & Moscas.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 20

A par dos Sheiks, que entretanto tinham conseguido chegar ao terceiro lugar do top de vendas e a um contrato com a boite Tosco, a grande banda destes anos foram os Ekos. Foram eles quem mais vendeu nesse ano, sendo os seus discos dos poucos que conseguiam esgotar a primeira edição, e gabavam-se de ter recebido cerca de 10.000 postais e cartas. Tocando em hoteis como o de Ofir e o da Póvoa, foi no entanto em Albufeira que conheceram Cliff Richard, que os aconselhou a cantar em português, e que se reflectiu na entrada de Zé Luís para a banda. Apesar de terem de cumprir o serviço militar, os Ekos continuaram até 1970 e gravaram seis EP's, além de uma colaboração com Magdalena Pinto Basto.

O ano termina com três grandes concertos: The Searchers a 2 e 3 de Novembro no Teatro Monumental, com os Satins, ingleses que mais tarde gravaram um EP com Fernando Conde, e na primeira parte os Dakotas, os Sheiks e os Ekos; os The Animals, também no Teatro Monumental, com primeira parte de Gino Paoli, a 7 de Dezembro.

O Diário de Notícias deixou "um aviso: não tragam os Beatles! Será o fim do Monumental - teatro e cinema - a avaliar pelo delírio que ontem provocaram The Animals. (...)Gritos estridentes, ininterruptos, agudos, lancinantes, um uivo sincopado de yé-yé, definindo quase um sentimento de dor"[1].

Rendido, O Século disse escreveu que "não é possível fazer crítica (musical) ao espectáculo que Vasco Morgado apresentou ontem (com um êxito de bilheteira que esgotou duas salas até ao tecto) no Monumental. Eram The Animals e soberbamente ferozes eles se apresentaram com suas jubas, roncos, esgares, etc. Impossível distinguir a música que tocaram. De ensurdecer. Ainda por cima, a juventude que formava 97 por cento do público, nada deixou ouvir, com a gritaria infernal com que acompanhou a exibição dos seus ídolos. Antes, exibiu-se o grupo do italiano Gino Paoli. É de uma banalidade perfeita. Não aquece nem arrefece. Podia ter ficado em Itália"[2].

A 11 e 12 de Dezembro foi a vez de Cliff Richard com os Shadows no Cinema Império: "Cinco rapazes - normais, sem cabeleiras excessivas, simpáticos, sem exuberâncias de exteriorização, moderados sem crises patéticas de frenesi, mas extraordinários de virtuosismo nos ritmos modernos - apresentaram-se ontem pela primeira vez em Portugal oferecendo ao público jovem de Lisboa, na sala do Império, uma outra face da música ligeira actual. E, pelos vistos agradaram totalmente."[3]


[1] Diario de Noticias, 8.12.1965 citado em http://guedelhudos.blogspot.com , 22.1.2008

[2] O Seculo, 8.12.1965 citado em http://guedelhudos.blogspot.com , 22.1.1968

[3]Diario de Noticias, 12.12.1965 citado em http://guedelhudos.blogspot.com , 23.1.2008

sábado, 16 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 19

Cada vez se formavam mais bandas por todo o Portugal, como Os Feras de Elvas, Cometas Negros da Beira Baixa, Os Fífias dos Açores, Os Harlem da Régua, Os Corsários de Viseu, Telfam da Sertã, Os Farras e Os Neutrões de Lisboa, Os Acústicos, Os Yanques, Aquatiks, Os Irresistíveis, Os Flechas, etc... e também cada vez se organizavam mais concursos e festivais, apesar da mentalidade portuguesa das feiras, piqueniques e arraiais.

Foi a 10 de Abril que se realizou o 1º Grande Festival de Shake Rock'n'Roll no Cinema Águia d'Ouro, no Porto, com Armindo Rock, Tony Araújo e o Conjunto Os Galãs. Em Moçambique, 3000 pessoas assistiram à vitória do Conjunto Renato Silva no concurso Yé Yé, no Estádio do Malhanga. A 1 de Agosto deu-se a primeira eliminatória do maior concurso Yé Yé de Portugal, no Teatro Monumental, que se prolongaria até 1966.

Nas colónias a música ganhava cada vez mais consagração e respeito. As bandas locais, como Os Lords, Kriptons ou Corsários de Joe Mendes, tinham oportunidade de tocar nos mais diversos espaços, desde as esplanadas, como a do Café Universal na Guiné, ou a do Cinema Esplanada Miramar ou do N'gola, a bares como a Cave, a Toca ou o Xai-Xai em Moçambique, ou o Rex Club em Angola, e até em montras de lojas.

Também as bandas de Portugal continental tiveram a oportunidade ou obrigação de ir lá tocar, em digressões só para militares. Como tal, Os Tártaros foram convidados a tocar três meses numa boite em Luanda, José Manuel Concha tocou na Guiné, Fernando Concha em Angola e o Conjunto João Paulo foi vinte dias para Moçambique.

terça-feira, 12 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 18

Por melhores condições de vida e, a partir desta altura, sobretudo por causa da guerra colonial, cada vez mais jovens emigraram de Portugal, "a salto" se necessário. Outros começavam a voltar das colónias, já homens, despedaçados ou mortos.

Em 1965, um ano depois de ter formado a Frente Portuguesa de Libertação Nacional, Humberto Delgado foi assassinado numa cilada na fronteira entre Portugal e Espanha. Nesse mesmo ano foram presos os principais activistas das associações académicas, e em Outubro publicado o Manifesto dos 101 Católicos, contra a cumplicidade entre o Estado e a Igreja Católica e a política colonial, assinado por Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Sousa Tavares, João Bénard da Costa e Nuno Teotónio Pereira, entre outros.


1965 foi também o ano da mini-saia e das meias de vidro, do estilo Saint Tropez de Brigitte Bardot e Sylvie Vartan e de Carnaby Street. Em Portugal, havia a Porfírios, os cigarros Kart e carros como Austin Mini, Spring 850 ou o Renault R8.

Apesar do sonho de aparecerem na televisão, que neste ano emitiu uma edição especial do programa Ritmos
, como esta mostrava pouco ou nada do que a camada mais jovem queria ver, foi a rádio que ganhou cada vez mais força. Deu-se uma "invasão de pequenos receptores e transístores para ouvirem música" e programas como "23ª Hora" e, mais tarde, o "Em Órbita" e o "A Noite é Nossa" dedicavam o seu espaço a novidades musicais. Também fora de Portugal a Rádio Dakar, a Emissora Provincial da Guiné e a Rádio Clube de Cabo Verde abriam espaços para os mais jovens.