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segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Os Verdes Anos" (1960-1963): Parte 8



O segundo destes novos eventos é organizado pelo Cinema Roma, em Lisboa, para promover o filme Mocidade em Férias (Summer Holiday,1963) de Peter Yates com Cliff Richard e os Shadows. Intitulado Concurso de Conjuntos Portugueses do tipo dos The Shadows este ocorreu ao longo de Setembro de 1963 e participaram um total de 22 conjuntos. Tendo como “critério de avaliação a semelhança com os Shadows” chegaram à final, realizada no dia 4 de Outubro, os Panteras do Diabo, Nelo do Twist e seus Diabos, Os Titãs, Daniel Bacelar e os Gentlemen e o Conjunto Mistério de Fernando Concha (inscritos como Mascarilhas).
 
(retirado de guedelhudos.blogspot.com)
Oriundos de Matosinhos, Os Titãs eram constituídos por Fernando Costa Pereira, João Lourival, Simões Carneiro e João Braga e gravam logo em 1963 o seu disco de estreia onde, em versões instrumentais surf, ou à Shadows, “há desde o folclore, representado pela Canção da Beira e Vira da Nazaré, até à balada de Coimbra”. Nesse mesmo ano vêem editado mais um EP onde está incluído o seu Tema para Titãs. Com carreira interrompida devido ao serviço militar, em 1967 anunciam o seu regresso com uma nova formação, que incluía José Lello no saxofone e voz, o que desde logo indiciava uma mudança no seu som. No entanto, é apenas dois anos depois, em 1969, que gravam aquele que seria o seu último EP. Um disco com uma consistência e maturidade quase raras em Portugal ao enveredar por sonoridades beat com toadas psicadélicas, desta vez cantando em inglês mas também fazendo uma versão de uma música tradicional de Miranda do Douro, Mira-me Maria (no original Mira-me Miguel). Separando-se pouco depois, José Lello ainda tenta uma carreira a solo antes de ingressar na política.

(retirado de underrreview.blogspot.com)
Formados a partir de ex-membros do Conjunto Nova Onda, o Conjunto Mistério são hoje conhecidos pela sua imagem de marca, o uso de mascarilhas. Constituídos por Luís Waddington, Edmundo Silva, Michel Mounier e António Moniz Pereira, tornaram-se rapidamente um dos mais famosos conjuntos de então, reconhecidos pelo seu "virtuosismo, experiência e simplicidade de meios empregados, não olvidando clara noção rítmica", como descreve o Diário Popular de então, e pela adaptação de musicas populares portuguesas, como Coimbra Menina e Moça, Alecrim aos Molhos e Oliveirinha da Serra. O Conjunto Mistério ficou também conhecido por ter acompanhado nomes tão diversos como Fernando Concha, Duo Ouro Negro e Dário de Barros. Com a entrada de Edmundo Falé para as vozes e Edmundo Silva a sair para os Sheiks, pelo Conjunto Mistério passaram ainda Mário Terra e mais tarde José Cid. Com estas alterações começa-se a assistir um afastamento do som “à Shadows” para aproximações aos Beatles. Mas o conjunto opta por terminar e alguns membros juntam-se para formar o que seria o Quarteto 1111.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os Verdes Anos (1960-1963): Parte 3



 Estava-se em 1961 e numa altura em que "o público est[ava] arreigado à ideia, aliás falsa, de que o rock é uma música para teddy boys, uma música para transviados e que concorre para actos menos dignos". Por essa razão, cuidadosamente, alguns músicos optam por uma "nacionalização do rock", como lhe chama Zeca do Rock, por "criar um estilo de Rock português" para afastar essas conotações

(retirado de guedelhudos.blogspot.pt)
Assim, a partir daí, começam a fazer e a ouvir-se músicas com nomes como Nazaré Rock e Hino a Jesus, assim como versões instrumentais e "modernas", à Shadows, de temas tradicionais, como o Vira da Nazaré, tocado pelos Titãs ou o Alecrim tocado pelo Conjunto Mistério. Por opção ou por obrigação, o que é certo é que tocar temas populares era uma forma de agradar a novos e velhos e de conseguir mais oportunidades de tocar ao vivo em bailes e festas privadas sem causar grande alarido. Opção que fazia algum sentido especialmente quando os jovens músicos dependiam dos cachets recebidos nestes circuitos para pagar as prestações dos instrumentos. Caso contrário, como constata António Duarte no livro A Arte Eléctrica de Ser Português, quando “os bailaricos em liceus, em colectividades ou centros de convívio não chegam para arranjar a massa, são os pais que cobrem a despesa das prestações"…

(retirado de aja.pt)
 Os alinhamentos dos conjuntos nestes anos consistiam, por isso, nessas versões de temas populares, adaptadas a ritmos modernos, ou não, mas também versões portuguesas de êxitos internacionais. Esta era também uma das exigências das editoras, caso quisessem gravar e, como tal, era comum que os conjuntos se dedicassem a essa “arte” da imitação, que, de resto, como se verá mais adiante, era louvada e premiada pelas instituições e autoridades. A criatividade e a originalidade dos conjuntos limitava-se, nessa forma redutora e auto-censória, à tradução livre da letra inglesa e a algumas composições dos autores que talvez tivessem sorte de alguém gostar…

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Verdes Anos (1960-1963): Parte 1



Se a introdução do rock ‘n’ roll em Portugal, como se viu, se deu sob a forma de aventuras efémeras e na integração do ritmo dentro de outros géneros, geralmente associado a danças e sem grande relevo musical, ao longo da década de 60 as músicas feitas por jovens conseguem alcançar outro estatuto. Nas rádios e nas revistas, lentamente, começam a abrir-se espaços e pelo país fora constroem-se circuitos de actuação ao vivo. Surgem sonhos e ideias e até possibilidades de carreira no meio musical, até onde o serviço militar permitia...Forma-se assim uma cultura juvenil que, até então, parecia não existir.

Em termos musicais a década de 60 abre com a primeira edição comercial de rock ’n’ roll em português: um disco, de sete polegadas, repartido entre Daniel Bacelar e Os Conchas, prémio do empate no concurso da Rádio Renascença, Os Caloiros da Canção.

(retirado de underrreview.blogspot.com)
Primeiro grande fenómeno de popularidade juvenil, Os Conchas formam-se ainda no final da década de 50. Constituídos por José Manuel Concha e Fernando Gaspar, este duo lisboeta fortemente influenciado pela música norte-americana que chegava então a Portugal, foi imediatamente apelidados de "Everly Brothers portugueses”. Conseguindo, como prémio do concurso, além da gravação do disco, uma aparição na televisão portuguesa, Os Conchas tornam-se rapidamente famosos, dando concertos regulares e editando um total de seis EP’s. Uma carreira bem sucedida mas, infelizmente, curta.


(retirado de guedelhudos.blogspot.com)
 O início da guerra colonial faz com que, em 1962, Fernando Gaspar seja mobilizado para Moçambique e José Manuel Concha para a Guiné Portuguesa pondo fim ao conjunto. Apesar de tudo, em terreno de guerra, José Manuel Concha forma um novo grupo sendo imediatamente convidado para uma série de concertos para militares das Forças Armadas. Além disso, este ajuda a organizar concursos, incentivando a formação de conjuntos naquela então colónia portuguesa. 

Cerca de um ano depois volta a Portugal, prosseguindo com uma carreira a solo, lançando, em 1964, um disco acompanhado pelo Conjunto Os Conchas, cujos membros vinham dos Gatos Negros que costumavam acompanhar Victor Gomes. Posteriormente forma os Inéditos e nas décadas seguintes, já a solo e dentro de outro registo musical, atravessa a Europa e os Estados Unidos. Sediando-se em Paris somente no final dos anos 90 regressa a Portugal onde, ainda hoje, continua com a sua carreira musical.
Fernando Gaspar, de regresso do serviço militar, junta-se ao Conjunto Mistério, com quem grava dois EP’s, prosseguindo depois disso com uma carreira a solo. Viria a falecer em 1998 vítima de diabetes.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Rock 'n' Roll em Portugal (1955-1959): Parte IV


Babies

Igualmente na década de 50 surgem, em Coimbra, Os Babies, um conjunto que também toca rock ‘n’ roll. Formado por José Cid no rabecão, piano e voz, António Portela no piano e acordeão, António Igrejas Bastos na bateria e voz, e Carlos Nazaré na guitarra, o conjunto dura cerca de três anos mas não ficam registos a não ser fotográficos. Desfeito o grupo José Cid prossegue a sua carreira formando, em 1959, o Conjunto Orfeão de Coimbra juntamente com Daniel Proença de Carvalho, José Niza e Rui Ressurreição. Estes persistem durante algum tempo até que José Cid decide ir viver para Lisboa e juntar-se ao Conjunto Mistério. Rui Ressurreição também continuaria no mundo da música, fazendo posteriormente parte do Clube de Jazz do Orfeão Académico e mais tarde do Conjunto Hi-Fi e dos Álamos.

Pedro Osório
Com a maioria da imprensa centrada em Lisboa, a cobertura em termos musicais em relação ao Porto é quase inexistente. Das poucas referências existentes é a de Pedro Osório (1939-2012) que a partir de 1957 começa a fazer aparições públicas nas rádios e televisão. Em 1960 grava com o seu conjunto, formado por Francisco Ferreira da Silva, Pedro Nuno e José Couceiro, o EP Namorico da Rita. Um disco de quatro músicas de música ligeira com alguns contornos rock "civilizado". Nesse mesmo ano edita mais três discos, sempre com músicas mais ligeiras do que propriamente rock, e cantadas em português, inglês, francês e italiano, conforme ditavam as leis do mercado. No ano seguinte voltam a gravar mais um disco e só em 1967 é que Pedro Osório volta a estúdio em nome próprio. Nas décadas seguintes este tem uma prolífera carreira musical, fazendo parte dos Quinteto Académico e acompanhando ou fazendo arranjos musicais a Paulo de Carvalho, Luís Cília, Sérgio Godinho, José Almada, entre outros.