Mostrar mensagens com a etiqueta Canção da Saudade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Canção da Saudade. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"Os Verdes Anos" (1960-1963): Parte 6


Com chegada anunciada nas páginas da Plateia, Victor Gomes já tinha nome e carreira feita quando regressou a Portugal. Nascido em Lisboa aos quatro anos parte para Lourenço Marques com os seus pais. Começando na sua adolescência a frequentar os bares dos cais onde trabalhava – era na altura cargueiro -, foi nessa altura que tomou contacto com os novos sons americanos, do Elvis, Little Richard e Bill Haley. “Aquela era a nossa música, e eu dançava muito bem o rock, uma coisa instintiva que aprendi nos filmes. Inspirado, inscreve-se no concurso A Hora do Caloiro na Rádio Clube de Moçambique, com os seus Dardos, conseguindo logo ganhar o primeiro lugar. Imediatamente aclamado pela crítica, com apenas 18 anos, Victor Gomes torna-se um ídolo nacional. Percorrendo parte de África foi nessa altura contactado pelo actor Humberto Madeira que o aconselha a ir para Lisboa. Seguindo o seu conselho parte para Portugal, com apenas a morada do Café Lisboa. Aí, João Maria Tudella encaminha-o para os Gatos Negros, da Trafaria, na altura formados por José Alberto, na guitarra solo, Manuel Lixa, na guitarra ritmo, Jacinto Lixa no baixo e Quim Hilário na bateria, onde foi imediatamente aceite.

Estreando-se no Parque Mayer, num espectáculo de beneficência para o bailarino Fred, Victor Gomes e uns Gatos Negros carregados de aguardente entram no palco e em 20 minutos tornam-se famosos e contratados, por Vasco Morgado, para a revista Boa Noite, Lisboa. Pouco depois, participam, e vencem, o primeiro grande concurso de ritmos modernos realizado em Portugal, o acima referido Concurso do Rei do Twist. No concurso seguinte, de Conjuntos tipo The Shadows, embora tenha sido o eleito pelo público, o júri escolhe o Conjunto Mistério, uma vez que o critério de escolha era a similaridade com a referida banda inglesa. 


 Nessa altura, já Victor Gomes e os Gatos Negros eram conhecidos e percorriam o país em concertos que, conforme recorda numa entrevista ao Correio da Manhã, "era[m] uma loucura. Eu partia tudo. Todas as casas onde actuava abarrotavam de pessoas desejosas de me tocarem. Muitas vezes fui para o camarim todo rasgado e até em cuecas". No entanto a carreira com estes Gatos Negros foi curta, mais uma vez devido ao serviço militar que alguns membros tiveram de cumprir. Mas também por não terem assinado com a Valentim de Carvalho, uma vez que Victor Gomes se recusara a cantar versões portuguesas das músicas estrangeiras. 

(www.cinemaportugues.ubi.pt)
Ainda assim, no ano seguinte Victor Gomes contracena com Soledad Miranda no filme Canção da Saudade (1964) de Henrique Campos, onde faz de Tony Rocker, e canta uns twists em português (!), acompanhado por uns novos Gatos, agora Pretos. Em 1965 estes gravam ainda uma actuação para o programa Ritmos!, da RTP, e separam-se definitivamente depois disso. Victor Gomes em entrevista à Plateia constata, pertinentemente, que "em Portugal é impossível conseguir um conjunto sério de profissionais”. Decide por isso enveredar numa carreira a solo e tornar-se um artista de music-hall, abandonando o país que, segundo ele, não o soube receber nem dar valor. Antes de partir grava ainda o que seria o seu primeiro e único disco, Juntos Outra Vez, acompanhado pelos Siderais, que musicalmente já pouco tinha a ver com aquilo que o tornou conhecido, no principio da década. Actua no filme A Caçada do Malhadeiro (1969), de Quirino Simões. 

(retirado de guedelhudos.blogspot.com)
De volta a África estabelece-se em Moçambique e envereda por uma carreira como crooner. Nas décadas que se seguem, Victor Gomes vai pondo a música um pouco de parte e torna-se um mestre dos sete ofícios, fazendo de tudo, desde engordar gado na Rodésia a trabalhos em pedra no Algarve. 

Voltando à música apenas na década de 90, é nessa altura em que lança o CD Victor Gomes e o Regresso do Rei do Rock. A partir daí começa a fazer algumas aparições ao vivo esporadicamente, acompanhado pelas Gatas Loucas e a colaborar com os Ena Pá 2000. Em 2011 regressa também aos filmes, como actor na longa-metragem Calor & Moscas.

segunda-feira, 28 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 15

Apesar de tudo, para a maioria dos portugueses a música continuava a ser o fado e o nacional-cançonetismo. 1964 foi o ano da primeira participação de Portugal no Concurso Eurovisão da Canção, representado por António Calvário. Mas, por mais mérito que esse tivesse, a Plateia continuava a receber cartas acerca de que a rádio e a televisão não mostravam o twist , nem passavam música de feita fora de Lisboa. "Dança macabra" ou "diabólica"[1], como lhe chamaram alguns jornais, continuava mal vista, quando não era proibida.

Mas foi também nessas revistas que as bandas começaram a encontrar um espaço e os fans um forma de comunicar com os seus ídolos. Notícias, entrevistas, cartas abertas, fotografias, os discos da semana e letras de músicas começaram a tornar-se regulares nas páginas de revistas como a referida Plateia, Rádio & Televisão, Álbum da Canção, etc.

Os concursos de votação nos melhores cantores e grupos, como o "Microfone de Ouro", possibilitavam uma interacção que era complementada pelos clubes de fans. Admiradores começaram a coleccionar livros de autógrafos a que os artistas tinham dever de assinar, tal como tinham o de responder a cartas, telefonemas e enviar fotografias.

Programas de rádio como "Ouvindo as Estrelas", "Enquanto for Bom Dia" e o "Ritmo 64", complementavam tudo isto. No cinema, "Pão, Amor e Totobola" (1963), de Henrique Campos, contava com a presença de Zeca do Rock, e em "A Canção da Saudade" (1964), também de Henrique Campos, participou Victor Gomes com os seus Gatos Negros. Em 1965, o Conjunto João Paulo entra no filme "Férias em Portugal" e o Quinteto Académico no "Domingo à Tarde", de António de Macedo


[1] Diário Popular de 12.1.1964