Mostrar mensagens com a etiqueta Teddy Boys. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teddy Boys. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os Verdes Anos (1960-1963): Parte 3



 Estava-se em 1961 e numa altura em que "o público est[ava] arreigado à ideia, aliás falsa, de que o rock é uma música para teddy boys, uma música para transviados e que concorre para actos menos dignos". Por essa razão, cuidadosamente, alguns músicos optam por uma "nacionalização do rock", como lhe chama Zeca do Rock, por "criar um estilo de Rock português" para afastar essas conotações

(retirado de guedelhudos.blogspot.pt)
Assim, a partir daí, começam a fazer e a ouvir-se músicas com nomes como Nazaré Rock e Hino a Jesus, assim como versões instrumentais e "modernas", à Shadows, de temas tradicionais, como o Vira da Nazaré, tocado pelos Titãs ou o Alecrim tocado pelo Conjunto Mistério. Por opção ou por obrigação, o que é certo é que tocar temas populares era uma forma de agradar a novos e velhos e de conseguir mais oportunidades de tocar ao vivo em bailes e festas privadas sem causar grande alarido. Opção que fazia algum sentido especialmente quando os jovens músicos dependiam dos cachets recebidos nestes circuitos para pagar as prestações dos instrumentos. Caso contrário, como constata António Duarte no livro A Arte Eléctrica de Ser Português, quando “os bailaricos em liceus, em colectividades ou centros de convívio não chegam para arranjar a massa, são os pais que cobrem a despesa das prestações"…

(retirado de aja.pt)
 Os alinhamentos dos conjuntos nestes anos consistiam, por isso, nessas versões de temas populares, adaptadas a ritmos modernos, ou não, mas também versões portuguesas de êxitos internacionais. Esta era também uma das exigências das editoras, caso quisessem gravar e, como tal, era comum que os conjuntos se dedicassem a essa “arte” da imitação, que, de resto, como se verá mais adiante, era louvada e premiada pelas instituições e autoridades. A criatividade e a originalidade dos conjuntos limitava-se, nessa forma redutora e auto-censória, à tradução livre da letra inglesa e a algumas composições dos autores que talvez tivessem sorte de alguém gostar…

sábado, 12 de fevereiro de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 4

Mas o Rock 'n' Roll era mais do que um estilo de música. Era um estilo de vida, "era festa, era alegria, juventude"[1]. Despreocupado, por outro lado, revelava também a iliteracia dos jovens e a incapacidade de compreender outras línguas e, consequentemente, a essência de rebeldia desta novidade. Algo que, de resto, se vai traduzir sobretudo na inocuidade da maioria da música rock da geração seguinte.

Ainda assim, no Verão de 1959 assiste-se a um momento único de rebeldia "sem" causa associado imediatamente a este novo género musical. Nas zonas balneares de Sintra e Cascais um grupo de teddy-boys provoca desacatos, fura pneus, atira garrafas partidas para dentro de piscinas, expõe-se em cenas de nudez e é responsável por agressões físicas. Justa ou injustamente, a partir daqui qualquer acto de vandalismo passava a ser associado a teddy-boys e alguma animosidade foi conferida ao Rock 'n' Roll...

Mas Portugal não era só ponto de chegada mas também ponto de partida. A emigração, realidade portuguesa sobretudo a partir da década de 40, espalhava portugueses pelo mundo, mesmo além do território do império. Ainda nos anos 50, um jovem Victor Gomes dá então os seus primeiros passos em Angola e Moçambique, e é rapidamente eleito o Rei do Rock 'n' Roll. Nos Estados Unidos um "rockabilly cult cat" de nome Joe S. Alves grava dois singles em 1957, sob o nome de Portuguese Joe onde toca acompanhado pelos Tennessee Rockabillys. Personagem obscuro sobre ele, ainda hoje, nada se sabe. Victor Gomes, por seu lado, iria marcar a década seguinte e conseguir o seu lugar na história da música em Portugal...



[1] Entrevista do autor a Joaquim Costa em Outubro de 2007

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 3

Lenta e timidamente, começaram então a surgir os primeiros rockers, rockabillies e teddy-boys em Portugal. Imitando os comportamentos americanos, as maneiras de vestir e de pentear, cedo começaram também a imitar a música e a fazer conjuntos. Os Conchas, Daniel Bacelar, Joaquim Costa e os seus Rapazes da Estrela, Os Babies, Zé Manel Silva também conhecido como Baby Rock, Conjunto Pedro Osório, Armindo Rock, Tigres do Calipso, foram alguns dos nomes que nesta segunda metade da década de 50 fizeram um país ouvir o que se passava lá fora e que a rádio e as revistas não queriam mostrar. Tocando e cantando em associações e colectividades e jardins públicos – da Estrela, do Campo Grande e do Estoril -, apesar de raramente serem levados a sério, ainda assim alguns conseguiram tocar em alguns programas de variedades na rádio, como o "Ouvindo as Estrelas" ou "Visitas de Domingo".

Mas da parte de editoras discográficas não houve qualquer investimento e os registos discográficos desta época são escassos, aventuras ou investimentos de uns poucos. Assim, da década de 50, hoje restam apenas um acetato de Alfredo Laranjinha e um de Joaquim Costa. Datado de Agosto de 1959, é este último tido como o primeiro registo fonográfico de Rock ‘n’ Roll existente em Portugal[1]. As duas músicas, Tutti Frutti e Rip It Up, versões de dois dos maiores êxitos americanos da altura, demonstravam simultaneamente a apetência de alguns pelo novo e diferente, bem como o que se fazia ouvir por cá: Bill Haley, Elvis Presley, Little Richard, Gene Vincent e Chuck Berry.



[1] Reeditado pela Groovie Records / Meteorito, Lisboa, 2007, GRO 006/MD 001. Para mais informações sobre Joaquim Costa ver o insert que acompanha o disco.