
O número elevado de bandas fez também com que se começassem a gerar reacções. Eram os anos de Paula Ribas e de Natércia Barreto e dos seus “Óculos de Sol” e o Dr. José Afonso acusava por isso o yé-yé de ser uma "moda sem valores intelectuais"[1]. Começava-se a registar uma grande ausência de novidade, em que uma banda copiava a outra, no som, na atitude, na maneira de vestir e de pentear. E todos copiavam os Beatles...
Foi nesta altura que Victor Gomes declarou o fim da música como até então se conhecia. O fim do twist, do ié-ié, do shake, do hully gully e a sobrevivência e baladas, como "Yesterday", "Michelle" e "Girl", dos Beatles, provavam isso. "Os jovens preferem ritmos mais lentos e moderados", alem de que "os empresários só contratam artistas já feitos e esgotam tudo a explorá-los", enquanto "a televisão é só para ver os mesmos artistas portugueses de sempre, ou estrangeiros, com nome ou sem nome, não interessa"[2]. O futuro, dizia ele, seria o jazz, o regresso à essência, à forma primitiva. Apocalíptico e visionário, Victor Gomes estava certo...
O Concurso de Yé-Yé do Teatro Monumental foi o que atingiu maiores proporções, recebendo bandas de todo o Portugal, incluindo ilhas, Moçambique e Angola.
Avaliados por dois júris, um técnico e um de ié-ié, constituídos por "distintos músicos profissionais e um grupo de jovens entusiastas entendidos em ié-ié", as bandas competiam para um primeiro primeiro prémio de 15.000 escudos, um segundo de 10.000 escudos e um terceiro de 5.000 escudos. Além disso havia a taça do programa "Passatempo Juvenil", "a Philips oferecia uma telefonia e uma Philishave, a Casa Gouveia Machado uma viola Eko de 12 cordas no valor de 4.360$00, um microfone Shure no valor de 2.520$00 e uma tarola Sonor, com suporte, no valor de 1.720$00, o Salão Musical de Lisboa oferecia uma bateria, uma viola, uma guitarra, uma pandeireta e três harmónicas de boca, a Casa Galeão uma mala de viagem, a Casa Pinheiro Ribeiro cinco metros de tecido, a Casa J. Nunes Correia seis gravatas, a Sapataria Lord um par de sapatos, a Loja das Meias cinco gravatas e a Casa J. Pires Tavares dez frascos de água de Colónia."[1]
Apresentada por Henrique Mendes, a primeira eliminatória realizou-se a 28 de Agosto de 1965 e participaram Os Martinis de Elvas, Os Átomos de Lisboa, Os Dakotas de Almada, Magic Strings de Oeiras e os Jovens do Ritmo de Leiria. "O público entregou-se vibrantemente ao espectáculo e estabeleceu tal gritaria, tantas palmas, assobios e cantorias que em dados momentos era difícil distinguir os dois campos de som: o palco e a sala"[2]. As eliminatórias seguiram-se e contaram com a participação de quase cem bandas, entre as quais os G-Men do Entroncamento, que mais tarde deram origem à Filarmónica Fraude, os Black Boys de Santarém, Os Gringos de Torres Novas, Os Monstros e Os Diabólicos de Lisboa, Flechas de Oliveira de Azeméis, Guitarras de Fogo da Caparica, Penumbras e Os Morcegos de Olhão, Os Clips da Trafaria, Os Ratones de Vila Real de Santo António, os Boys de Coimbra que dariam origem aos Álamos e Conjunto Universitário Hi-Fi, Os Neptunos do Montijo, entre muitos outros.
"Atenção! Barulho que não permita o júri ouvir os conjuntos, objectos atirados para o palco, distúrbios na sala são motivos para a expulsão do espectador que assim proceder sem que a organização lhe devolva a importância do bilhete. A juventude pode ser alegre sem ser irreverente".
[1] Luis Pinheiro de Almeida in http://guedelhudos.blogspot.com, 16.10.2007
[2] O Século, citado em http://guedelhudos.blogspot.com, 16.10.2007.
1966: "Ritmos Modernos da Nova Vaga"
1966 foi o ano dos concursos, e marcado fundamentalmente pelo Concurso Yé-Yé do Teatro Monumental.
Embora já existentes desde o princípio da década, a adesão aos concursos tornou-se cada vez maior, quer em termos de público quer em termos de conjuntos, o que fez com que empresários começassem a investir cada vez mais neste novo tipo de entretenimento.
Foi, no entanto, o Movimento Nacional Feminino, de Cecília Supico Pinto, um dos principais responsáveis pela sua maior difusão.[1] Foram elas que organizaram espectáculos para os soldados, entretiveram os militares internados, enviaram lembranças para a frente de guerra e criaram o serviço de madrinhas. Ofereciam também cigarros aos que partiam e discos com mensagens de Natal aos que estavam "lá longe". Mesmo que estes não tivessem gira-discos...
[1] Formado a 28 de Abril de 1961, dia do aniversário de Salazar, o Movimento Nacional Feminino visou "congregar todas as mulheres portuguesas interessadas em prestar auxílio moral e material aos que lutam pela integridade do Território Pátrio”, conforme consta no Artigo 1º dos seus estatutos. Distribuída por Portugal Continental e Províncias Ultramarinas, esta organização filiou cerca de 82.000 mulheres e editou o jornal mensal "Guerrilha", a revista "Presença" e tinha o programa de rádio "Espaço"