quinta-feira, 28 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 21

1966: "Ritmos Modernos da Nova Vaga"

1966 foi o ano dos concursos, e marcado fundamentalmente pelo Concurso Yé-Yé do Teatro Monumental.

Embora já existentes desde o princípio da década, a adesão aos concursos tornou-se cada vez maior, quer em termos de público quer em termos de conjuntos, o que fez com que empresários começassem a investir cada vez mais neste novo tipo de entretenimento.

Foi, no entanto, o Movimento Nacional Feminino, de Cecília Supico Pinto, um dos principais responsáveis pela sua maior difusão.[1] Foram elas que organizaram espectáculos para os soldados, entretiveram os militares internados, enviaram lembranças para a frente de guerra e criaram o serviço de madrinhas. Ofereciam também cigarros aos que partiam e discos com mensagens de Natal aos que estavam "lá longe". Mesmo que estes não tivessem gira-discos...


Foi com o objectivo de angariar fundos para estas suas missões, que o Movimento Nacional Feminino começou a organizar espectáculos semanais, concursos e festivais de "música moderna", juntamente com a R.T.P., a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português e o jornal O Século.

[1] Formado a 28 de Abril de 1961, dia do aniversário de Salazar, o Movimento Nacional Feminino visou "congregar todas as mulheres portuguesas interessadas em prestar auxílio moral e material aos que lutam pela integridade do Território Pátrio”, conforme consta no Artigo 1º dos seus estatutos. Distribuída por Portugal Continental e Províncias Ultramarinas, esta organização filiou cerca de 82.000 mulheres e editou o jornal mensal "Guerrilha", a revista "Presença" e tinha o programa de rádio "Espaço"

quarta-feira, 20 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 20

A par dos Sheiks, que entretanto tinham conseguido chegar ao terceiro lugar do top de vendas e a um contrato com a boite Tosco, a grande banda destes anos foram os Ekos. Foram eles quem mais vendeu nesse ano, sendo os seus discos dos poucos que conseguiam esgotar a primeira edição, e gabavam-se de ter recebido cerca de 10.000 postais e cartas. Tocando em hoteis como o de Ofir e o da Póvoa, foi no entanto em Albufeira que conheceram Cliff Richard, que os aconselhou a cantar em português, e que se reflectiu na entrada de Zé Luís para a banda. Apesar de terem de cumprir o serviço militar, os Ekos continuaram até 1970 e gravaram seis EP's, além de uma colaboração com Magdalena Pinto Basto.

O ano termina com três grandes concertos: The Searchers a 2 e 3 de Novembro no Teatro Monumental, com os Satins, ingleses que mais tarde gravaram um EP com Fernando Conde, e na primeira parte os Dakotas, os Sheiks e os Ekos; os The Animals, também no Teatro Monumental, com primeira parte de Gino Paoli, a 7 de Dezembro.

O Diário de Notícias deixou "um aviso: não tragam os Beatles! Será o fim do Monumental - teatro e cinema - a avaliar pelo delírio que ontem provocaram The Animals. (...)Gritos estridentes, ininterruptos, agudos, lancinantes, um uivo sincopado de yé-yé, definindo quase um sentimento de dor"[1].

Rendido, O Século disse escreveu que "não é possível fazer crítica (musical) ao espectáculo que Vasco Morgado apresentou ontem (com um êxito de bilheteira que esgotou duas salas até ao tecto) no Monumental. Eram The Animals e soberbamente ferozes eles se apresentaram com suas jubas, roncos, esgares, etc. Impossível distinguir a música que tocaram. De ensurdecer. Ainda por cima, a juventude que formava 97 por cento do público, nada deixou ouvir, com a gritaria infernal com que acompanhou a exibição dos seus ídolos. Antes, exibiu-se o grupo do italiano Gino Paoli. É de uma banalidade perfeita. Não aquece nem arrefece. Podia ter ficado em Itália"[2].

A 11 e 12 de Dezembro foi a vez de Cliff Richard com os Shadows no Cinema Império: "Cinco rapazes - normais, sem cabeleiras excessivas, simpáticos, sem exuberâncias de exteriorização, moderados sem crises patéticas de frenesi, mas extraordinários de virtuosismo nos ritmos modernos - apresentaram-se ontem pela primeira vez em Portugal oferecendo ao público jovem de Lisboa, na sala do Império, uma outra face da música ligeira actual. E, pelos vistos agradaram totalmente."[3]


[1] Diario de Noticias, 8.12.1965 citado em http://guedelhudos.blogspot.com , 22.1.2008

[2] O Seculo, 8.12.1965 citado em http://guedelhudos.blogspot.com , 22.1.1968

[3]Diario de Noticias, 12.12.1965 citado em http://guedelhudos.blogspot.com , 23.1.2008

sábado, 16 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 19

Cada vez se formavam mais bandas por todo o Portugal, como Os Feras de Elvas, Cometas Negros da Beira Baixa, Os Fífias dos Açores, Os Harlem da Régua, Os Corsários de Viseu, Telfam da Sertã, Os Farras e Os Neutrões de Lisboa, Os Acústicos, Os Yanques, Aquatiks, Os Irresistíveis, Os Flechas, etc... e também cada vez se organizavam mais concursos e festivais, apesar da mentalidade portuguesa das feiras, piqueniques e arraiais.

Foi a 10 de Abril que se realizou o 1º Grande Festival de Shake Rock'n'Roll no Cinema Águia d'Ouro, no Porto, com Armindo Rock, Tony Araújo e o Conjunto Os Galãs. Em Moçambique, 3000 pessoas assistiram à vitória do Conjunto Renato Silva no concurso Yé Yé, no Estádio do Malhanga. A 1 de Agosto deu-se a primeira eliminatória do maior concurso Yé Yé de Portugal, no Teatro Monumental, que se prolongaria até 1966.

Nas colónias a música ganhava cada vez mais consagração e respeito. As bandas locais, como Os Lords, Kriptons ou Corsários de Joe Mendes, tinham oportunidade de tocar nos mais diversos espaços, desde as esplanadas, como a do Café Universal na Guiné, ou a do Cinema Esplanada Miramar ou do N'gola, a bares como a Cave, a Toca ou o Xai-Xai em Moçambique, ou o Rex Club em Angola, e até em montras de lojas.

Também as bandas de Portugal continental tiveram a oportunidade ou obrigação de ir lá tocar, em digressões só para militares. Como tal, Os Tártaros foram convidados a tocar três meses numa boite em Luanda, José Manuel Concha tocou na Guiné, Fernando Concha em Angola e o Conjunto João Paulo foi vinte dias para Moçambique.

terça-feira, 12 de abril de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 18

Por melhores condições de vida e, a partir desta altura, sobretudo por causa da guerra colonial, cada vez mais jovens emigraram de Portugal, "a salto" se necessário. Outros começavam a voltar das colónias, já homens, despedaçados ou mortos.

Em 1965, um ano depois de ter formado a Frente Portuguesa de Libertação Nacional, Humberto Delgado foi assassinado numa cilada na fronteira entre Portugal e Espanha. Nesse mesmo ano foram presos os principais activistas das associações académicas, e em Outubro publicado o Manifesto dos 101 Católicos, contra a cumplicidade entre o Estado e a Igreja Católica e a política colonial, assinado por Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Sousa Tavares, João Bénard da Costa e Nuno Teotónio Pereira, entre outros.


1965 foi também o ano da mini-saia e das meias de vidro, do estilo Saint Tropez de Brigitte Bardot e Sylvie Vartan e de Carnaby Street. Em Portugal, havia a Porfírios, os cigarros Kart e carros como Austin Mini, Spring 850 ou o Renault R8.

Apesar do sonho de aparecerem na televisão, que neste ano emitiu uma edição especial do programa Ritmos
, como esta mostrava pouco ou nada do que a camada mais jovem queria ver, foi a rádio que ganhou cada vez mais força. Deu-se uma "invasão de pequenos receptores e transístores para ouvirem música" e programas como "23ª Hora" e, mais tarde, o "Em Órbita" e o "A Noite é Nossa" dedicavam o seu espaço a novidades musicais. Também fora de Portugal a Rádio Dakar, a Emissora Provincial da Guiné e a Rádio Clube de Cabo Verde abriam espaços para os mais jovens.