quinta-feira, 24 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 14

Conscientes do seu potencial económico, por todo o país começaram-se a organizar festivais semelhantes aos que já se tinham realizado em Lisboa e Porto, dando oportunidade às novas bandas para tocarem ao vivo e saírem do circuito das feiras e arraiais.

Em Maio desse ano realizouse o Festival de Ritmos Modernos de Braga, com Os Diablos, Armindo Rock e os Tártaros, Allan Twist e o seu conjunto e Tony Miguel e os seus Twisters. Em Julho realizou-se um outro no Palácio de Cristal ao qual comparecem cerca de 10.000 espectadores! Foi nesta altura que Francoise Hardy veio ao Teatro Monumental - num concerto em que após 25 minutos de ter começado a polícia dispersou a plateia-, que Sylvie Vartan cantou no Coliseu do Porto e que o Duo Ouro Negro passou pela capital, em vésperas de se tornarem estrelas internacionais.

Mas a "invasão" estrangeira não se deu só por via da música. Com a ideia de que o turismo era a única maneira de saldar o défice orçamental de Portugal, começou-se a apostar nesta indústria. Transformada a costa numa estância balnear, começaram a chegar turistas especialmente de Inglaterra, Alemanha e Espanha que encontravam em Portugal um destino barato. Com eles, além do dinheiro, chegavam novos hábitos, vivências e exigências. Com a necessidade ou obrigação de entreter, abriram boites e os hotéis e casinos tornaram-se locais de actuações ao vivo, contratando para esse efeito as novas bandas.

domingo, 20 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 13

Mas quando todos começaram a querer ser como os Beatles essas tendências de baile foram ultrapassadas e por todo o país e colónias formaram-se grupos como Os Rockers e Os Galos de Guimarães, Fantasmas de Unhais da Serra, Os Farras de Lisboa, Big Star da Guiné, Vagabundos do Ritmo de Évora, Conjunto Manchester da Covilhã, Os Charruas de Santarém, Os Dallas e Os Kings de Caldas de Vizela, Os Blusões Negros, Os Espaciais e Os Morgans do Porto, Os Cábulas de Olhão, Diamantes Negros de Sintra, Os Cometas, Conjunto Nice 64, Os Gaúchos, Armindo Rocky, Augusto Rock,Os Gatos Dourados, Fantasmas do Diabo, Os Martinis, entre outros.


Mas de todas as bandas que os Beatles influenciaram, foram os Sheiks os que mais se destacaram. Quatro rapazes da Avenida de Roma, cuja a bebida preferida era leite[1], num espaço de dois anos conseguiram gravar oito discos de originais e ver discos seus publicados por editoras inglesas, brasileiras, espanholas e francesas, gerando uma sheiks-mania.


[1] De acordo com biografia publicada no insert do disco Portuguese Nuggets, volume 1, Galo de Barcelos Records, 2007

quarta-feira, 16 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 12

1964-1965: "A Invasão Britânica"

Lentamente o panorama começava a mudar. O ano de 1964 começou com o Festival de Ritmos Modernos no Teatro Monumental, realizado a 11 e 12 de Janeiro onde participaram Zeca do Rock, Nelo e o Conjunto Luís Costa Pinto, Fernando Conde e os Electrónicos, Daniel Bacelar e os Gentlemen, Madalena Iglésias e Marina Neves.

"O Festival foi o mais completo sucesso em termos de rock and roll, com a assistência a gritar, dançar, e aplaudir-nos vibrantemente. O grande erro foi o Vasco Morgado (talvez para fazer a vontade à Censura) ter tentado misturar cançonetistas tradicionais com intérpretes de rock. Pela nossa parte, tudo bem, porque éramos colegas e amigos dos tradicional-cançonetistas, mas certo público jovem, cansado da música que lhe era impingida pelas instâncias oficiais, estava ali para soltar o grito do Ipiranga contra o antigo regime em termos de preferências musicais. Em consequência, decidiu pura e simplesmente recusar-se a ouvir esses intérpretes, vaiando-os e até lançando objectos para o palco"[1].


Mas quando a os Beatles chegaram aos Estados Unidos e tocaram no Ed Sullivan Show, a 9 de Fevereiro de 1964, tudo mudou. Salazar queria "este país pobre mas independente", mas Portugal não conseguiu resistir à "invasão britânica"[2], e por todo o país começaram então a aparecer bandas de jovens a imitar estes seus novos ídolos. Os instrumentos, esses, eram comprados a prestações na "casa de instrumentos musicais na rua de S. José, em Lisboa, uma espécie de santuário para todos nós, a Casa Gouveia Machado"[3] e pagos com o dinheiro futuramente ganho nos bailes ou concertos. Por essa razão, os reportórios continuavam a consistir em, sobretudo, versões de músicas tradicionais e dos êxitos internacionais, sobretudo franceses e italianos.

Em entrevista à Plateia em Agosto de 1969, em jeito de balanço da década, o director desta casa conta que vendeu "instrumentos suficientes para equipar perto de 3.000 conjuntos"[4].



[1] Zeca do Rock in http://guedelhudos.blogspot.com , 8.2.2008

[2] Termo usado para descrever as bandas de rock'n'roll inglesas, da década de 60, que começaram a ter sucesso fora do seu país de origem, sobretudo nos Estados Unidos. Além dos Beatles, fizeram parte desta invasão os Rolling Stones, The Who, Yardbirds, The Kinks, The Animals, entre muitos outros.

[3] Daniel Bacelar in http://guedelhudos.blogspot.com , 26.12.2007

[4] "O negócio dos instrumentos em Portugal" in Plateia, no.446, 19.8.1969

sábado, 12 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 11

Apesar de os instrumentos serem caros, recorrendo-se, por isso, às mais baratas guitarras Eko e a material feito em casa, inscreveram-se um surpreendente número de vinte e duas bandas, que desde o princípio da década se vinham a formar: Victor Gomes e os seus Gatos Negros, Nelo do Twist e seus Diabos, Electrónicos, Jets, Telstars, Eddy Gonzalez e os seus Ekos, Les Fanatics, Vendavais, Tigres, 3 Jotas, Os Titãs, Daniel Bacelar e os Gentlemen, S.O.S., Lisboa À Noite, Nova Onda, Sanremo 172, Napolitano, Panteras do Diabo, Jovens do Ritmo, Mascarilhas, Juventude Dinâmica e Condores.

"A iniciativa teve outra particularidade agradável: não houve êxtase de jovens contagiados na plateia, não houve distúrbios na sala"[1]... e mais votado pelo público foi Victor Gomes e os Gatos Negros mas pelo júri elegeu o Conjunto Mistério. Foram estes que, acompanhados por Fernando Pessa, passaram uma semana em Londres, actuando na BBC e na Casa de Portugal.

Nesse mesmo mês de Setembro foi também realizado o Festival Rock e Twist no Cinema Águia d'Ouro, no Porto, que contou com a presença de Armindo Rock. Entretanto, na ilha da Madeira já se tinha formado aquele que viria a ser um dos maiores fenómenos de popularidade destes anos, o Conjunto João Paulo. E ainda no continente, em Campo de Ourique, formou-se uma das mais prolíferas bandas portuguesas, os Ekos.



[1] Radio & Televisao, 12.10.1963

terça-feira, 8 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 10

Foi numa relação com o cinema que a música pop-rock conseguiu alguma credibilidade e se deu algum progresso. Os cinemas, novo espaço social que vinha a substituir os cafés como local de encontro e discussão, passaram a ser um dos locais de actuação ao vivo.

Quando a 13 de Setembro de 1963 estreia o filme Mocidade em Férias, de Peter Yates, no Cinema Roma, este é antecedido por um concerto de Victor Gomes - recém-chegado de África, e já eleito o do Rei do Twist num concurso do Teatro Monumental-, de Fernando Conde e os Electrónicos e de Nelo do Twist.

Foi neste mesmo cinema que durante esse mês e o seguinte se realizou o concurso de Conjuntos Portugueses do tipo dos Shadows em que "o conjunto eleito pelo voto do espectador terá direito, graças aos Estabelecimentos Valentim de Carvalho, a uma face de um disco comercial e o Conjunto escolhido pelo Júri a um disco comercial (2 faces) e ainda à apresentação pessoal aos Shadows, em Londres, para onde serão transportados em aviões dos TAP-BEA"[1].



[1] referenciado por Luis Pinheiro de Almeida em http://guedelhudos.blogspot.com, 4.10.2007.