quarta-feira, 16 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 12

1964-1965: "A Invasão Britânica"

Lentamente o panorama começava a mudar. O ano de 1964 começou com o Festival de Ritmos Modernos no Teatro Monumental, realizado a 11 e 12 de Janeiro onde participaram Zeca do Rock, Nelo e o Conjunto Luís Costa Pinto, Fernando Conde e os Electrónicos, Daniel Bacelar e os Gentlemen, Madalena Iglésias e Marina Neves.

"O Festival foi o mais completo sucesso em termos de rock and roll, com a assistência a gritar, dançar, e aplaudir-nos vibrantemente. O grande erro foi o Vasco Morgado (talvez para fazer a vontade à Censura) ter tentado misturar cançonetistas tradicionais com intérpretes de rock. Pela nossa parte, tudo bem, porque éramos colegas e amigos dos tradicional-cançonetistas, mas certo público jovem, cansado da música que lhe era impingida pelas instâncias oficiais, estava ali para soltar o grito do Ipiranga contra o antigo regime em termos de preferências musicais. Em consequência, decidiu pura e simplesmente recusar-se a ouvir esses intérpretes, vaiando-os e até lançando objectos para o palco"[1].


Mas quando a os Beatles chegaram aos Estados Unidos e tocaram no Ed Sullivan Show, a 9 de Fevereiro de 1964, tudo mudou. Salazar queria "este país pobre mas independente", mas Portugal não conseguiu resistir à "invasão britânica"[2], e por todo o país começaram então a aparecer bandas de jovens a imitar estes seus novos ídolos. Os instrumentos, esses, eram comprados a prestações na "casa de instrumentos musicais na rua de S. José, em Lisboa, uma espécie de santuário para todos nós, a Casa Gouveia Machado"[3] e pagos com o dinheiro futuramente ganho nos bailes ou concertos. Por essa razão, os reportórios continuavam a consistir em, sobretudo, versões de músicas tradicionais e dos êxitos internacionais, sobretudo franceses e italianos.

Em entrevista à Plateia em Agosto de 1969, em jeito de balanço da década, o director desta casa conta que vendeu "instrumentos suficientes para equipar perto de 3.000 conjuntos"[4].



[1] Zeca do Rock in http://guedelhudos.blogspot.com , 8.2.2008

[2] Termo usado para descrever as bandas de rock'n'roll inglesas, da década de 60, que começaram a ter sucesso fora do seu país de origem, sobretudo nos Estados Unidos. Além dos Beatles, fizeram parte desta invasão os Rolling Stones, The Who, Yardbirds, The Kinks, The Animals, entre muitos outros.

[3] Daniel Bacelar in http://guedelhudos.blogspot.com , 26.12.2007

[4] "O negócio dos instrumentos em Portugal" in Plateia, no.446, 19.8.1969

sábado, 12 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 11

Apesar de os instrumentos serem caros, recorrendo-se, por isso, às mais baratas guitarras Eko e a material feito em casa, inscreveram-se um surpreendente número de vinte e duas bandas, que desde o princípio da década se vinham a formar: Victor Gomes e os seus Gatos Negros, Nelo do Twist e seus Diabos, Electrónicos, Jets, Telstars, Eddy Gonzalez e os seus Ekos, Les Fanatics, Vendavais, Tigres, 3 Jotas, Os Titãs, Daniel Bacelar e os Gentlemen, S.O.S., Lisboa À Noite, Nova Onda, Sanremo 172, Napolitano, Panteras do Diabo, Jovens do Ritmo, Mascarilhas, Juventude Dinâmica e Condores.

"A iniciativa teve outra particularidade agradável: não houve êxtase de jovens contagiados na plateia, não houve distúrbios na sala"[1]... e mais votado pelo público foi Victor Gomes e os Gatos Negros mas pelo júri elegeu o Conjunto Mistério. Foram estes que, acompanhados por Fernando Pessa, passaram uma semana em Londres, actuando na BBC e na Casa de Portugal.

Nesse mesmo mês de Setembro foi também realizado o Festival Rock e Twist no Cinema Águia d'Ouro, no Porto, que contou com a presença de Armindo Rock. Entretanto, na ilha da Madeira já se tinha formado aquele que viria a ser um dos maiores fenómenos de popularidade destes anos, o Conjunto João Paulo. E ainda no continente, em Campo de Ourique, formou-se uma das mais prolíferas bandas portuguesas, os Ekos.



[1] Radio & Televisao, 12.10.1963

terça-feira, 8 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 10

Foi numa relação com o cinema que a música pop-rock conseguiu alguma credibilidade e se deu algum progresso. Os cinemas, novo espaço social que vinha a substituir os cafés como local de encontro e discussão, passaram a ser um dos locais de actuação ao vivo.

Quando a 13 de Setembro de 1963 estreia o filme Mocidade em Férias, de Peter Yates, no Cinema Roma, este é antecedido por um concerto de Victor Gomes - recém-chegado de África, e já eleito o do Rei do Twist num concurso do Teatro Monumental-, de Fernando Conde e os Electrónicos e de Nelo do Twist.

Foi neste mesmo cinema que durante esse mês e o seguinte se realizou o concurso de Conjuntos Portugueses do tipo dos Shadows em que "o conjunto eleito pelo voto do espectador terá direito, graças aos Estabelecimentos Valentim de Carvalho, a uma face de um disco comercial e o Conjunto escolhido pelo Júri a um disco comercial (2 faces) e ainda à apresentação pessoal aos Shadows, em Londres, para onde serão transportados em aviões dos TAP-BEA"[1].



[1] referenciado por Luis Pinheiro de Almeida em http://guedelhudos.blogspot.com, 4.10.2007.

sexta-feira, 4 de março de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 9

Se 1961 foi o ano do criação da Polícia de Choque, o ano em que é publicada a carta pela emancipação feminina no jornal estudantil Via Latina, o ano em que o Benfica trouxe para casa a Taça dos Campeões Europeus e o do desvio do navio Santa Maria, 1962 em que o governo decreta a proíbição do Dia do Estudante. Sucederam-se então manifestações estudantis e foi declarado o "luto académico", que se prolongou até aos exames e incluiu greves de fome e o encerrar da Associação Académica de Coimbra pela polícia. Já politizados, os jovens entravam numa batalha, muitas vezes física, e que iria atravessar toda a década de 60. Ainda nesse ano de 1962, um avião da TAP foi desviado e foram lançados folhetos da Frente Anti-Totalitária dos Portugueses no Estrangeiro sobre Lisboa, e foi proibida a prostituição.

No entanto, na música nada disso se reflectiu. Como que alheias a tudo o que se passava, até mesmo em termos de cultura juvenil que começava a surgir em Portugal, as letras continuavam a ser sobre amores juvenis e pouco mais.

Noutro registo, no cinema, chegava o Cinema Novo Português pelas mãos dos que tinham estudado no estrangeiro e que estiveram em contacto com a Nouvelle Vague, mas também dos que ficaram por cá atentos ao que a Cinemateca Portuguesa e os cine-clubes vinham a exibir. Novos em termos técnicos e de conteúdos, filmes como Dom Roberto (1962), de José Ernesto de Sousa, Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, e as produções de António da Cunha Telles vieram abrir uma ruptura, trazendo uma nova realidade e realismo. Foi, no entanto, Fernando Lopes que, no ano de 1963, no seu Belarmino, captou o plano que definiria a década, em toda a sua claustrofobia, solidão e luta: Belarmino em contra-luz ao fundo de um túnel a lutar sozinho.