
in Plateia nº 200
Se 1961 foi o ano do criação da Polícia de Choque, o ano em que é publicada a carta pela emancipação feminina no jornal estudantil Via Latina, o ano em que o Benfica trouxe para casa a Taça dos Campeões Europeus e o do desvio do navio Santa Maria, 1962 em que o governo decreta a proíbição do Dia do Estudante. Sucederam-se então manifestações estudantis e foi declarado o "luto académico", que se prolongou até aos exames e incluiu greves de fome e o encerrar da Associação Académica de Coimbra pela polícia. Já politizados, os jovens entravam numa batalha, muitas vezes física, e que iria atravessar toda a década de 60. Ainda nesse ano de 1962, um avião da TAP foi desviado e foram lançados folhetos da Frente Anti-Totalitária dos Portugueses no Estrangeiro sobre Lisboa, e foi proibida a prostituição.
No entanto, na música nada disso se reflectiu. Como que alheias a tudo o que se passava, até mesmo em termos de cultura juvenil que começava a surgir em Portugal, as letras continuavam a ser sobre amores juvenis e pouco mais.
Noutro registo, no cinema, chegava o Cinema Novo Português pelas mãos dos que tinham estudado no estrangeiro e que estiveram em contacto com a Nouvelle Vague, mas também dos que ficaram por cá atentos ao que a Cinemateca Portuguesa e os cine-clubes vinham a exibir. Novos em termos técnicos e de conteúdos, filmes como Dom Roberto (1962), de José Ernesto de Sousa, Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha, e as produções de António da Cunha Telles vieram abrir uma ruptura, trazendo uma nova realidade e realismo. Foi, no entanto, Fernando Lopes que, no ano de 1963, no seu Belarmino, captou o plano que definiria a década, em toda a sua claustrofobia, solidão e luta: Belarmino em contra-luz ao fundo de um túnel a lutar sozinho.
Conscientes da emergente cultura juvenil, lentamente os espaços outrora devotados a géneros de espectáculos – cinemas e teatros - abriram a sua programação a novos eventos, como os concertos e concursos de música pop-rock. Por detrás disto estavam personalidades como Vasco Morgado ou Arlindo Conde e, mais tarde, entidades como o Movimento Nacional Feminino.
Mas as bandas neste princípio de década ainda eram poucas, de curta duração e sediadas sobretudo em Lisboa, Porto e Coimbra. O serviço militar iminente, ou obrigações profissionais ou familiares, impediam qualquer possibilidade de carreira ou até mesmo de tocar fora do país. Foi o caso dos Conchas, que tiveram convites para tocar no Brasil, Alemanha e França.
Tinham, por isso, os grupos de se contentar com os espectáculos organizados pelo "Passatempo para Jovens", ou rezarem para terem a sorte de irem à televisão ou serem contratados por algum hotel para banda residente. Ainda assim, em 1961, Zeca do Rock conseguiu gravar o seu único EP em nome próprio, editado pela Rádio Triunfo, e Fernando Conde, o Conjunto Nova Onda e o Quinteto Académico começavam a dar os seus primeiros passos.
Sendo na sua maioria estudantes ou trabalhadores em princípio de carreira, a música era vivida como apenas mais uma aventura ou hobby. Entretanto, nas revistas começavam a aparecer nomes como Tarzan Taborda, Madalena Iglésias e Florbela Queiroz, a dita "Brigitte Bardot portuguesa" que se tornariam idolos de uma geração.