sábado, 12 de fevereiro de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 4

Mas o Rock 'n' Roll era mais do que um estilo de música. Era um estilo de vida, "era festa, era alegria, juventude"[1]. Despreocupado, por outro lado, revelava também a iliteracia dos jovens e a incapacidade de compreender outras línguas e, consequentemente, a essência de rebeldia desta novidade. Algo que, de resto, se vai traduzir sobretudo na inocuidade da maioria da música rock da geração seguinte.

Ainda assim, no Verão de 1959 assiste-se a um momento único de rebeldia "sem" causa associado imediatamente a este novo género musical. Nas zonas balneares de Sintra e Cascais um grupo de teddy-boys provoca desacatos, fura pneus, atira garrafas partidas para dentro de piscinas, expõe-se em cenas de nudez e é responsável por agressões físicas. Justa ou injustamente, a partir daqui qualquer acto de vandalismo passava a ser associado a teddy-boys e alguma animosidade foi conferida ao Rock 'n' Roll...

Mas Portugal não era só ponto de chegada mas também ponto de partida. A emigração, realidade portuguesa sobretudo a partir da década de 40, espalhava portugueses pelo mundo, mesmo além do território do império. Ainda nos anos 50, um jovem Victor Gomes dá então os seus primeiros passos em Angola e Moçambique, e é rapidamente eleito o Rei do Rock 'n' Roll. Nos Estados Unidos um "rockabilly cult cat" de nome Joe S. Alves grava dois singles em 1957, sob o nome de Portuguese Joe onde toca acompanhado pelos Tennessee Rockabillys. Personagem obscuro sobre ele, ainda hoje, nada se sabe. Victor Gomes, por seu lado, iria marcar a década seguinte e conseguir o seu lugar na história da música em Portugal...



[1] Entrevista do autor a Joaquim Costa em Outubro de 2007

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 3

Lenta e timidamente, começaram então a surgir os primeiros rockers, rockabillies e teddy-boys em Portugal. Imitando os comportamentos americanos, as maneiras de vestir e de pentear, cedo começaram também a imitar a música e a fazer conjuntos. Os Conchas, Daniel Bacelar, Joaquim Costa e os seus Rapazes da Estrela, Os Babies, Zé Manel Silva também conhecido como Baby Rock, Conjunto Pedro Osório, Armindo Rock, Tigres do Calipso, foram alguns dos nomes que nesta segunda metade da década de 50 fizeram um país ouvir o que se passava lá fora e que a rádio e as revistas não queriam mostrar. Tocando e cantando em associações e colectividades e jardins públicos – da Estrela, do Campo Grande e do Estoril -, apesar de raramente serem levados a sério, ainda assim alguns conseguiram tocar em alguns programas de variedades na rádio, como o "Ouvindo as Estrelas" ou "Visitas de Domingo".

Mas da parte de editoras discográficas não houve qualquer investimento e os registos discográficos desta época são escassos, aventuras ou investimentos de uns poucos. Assim, da década de 50, hoje restam apenas um acetato de Alfredo Laranjinha e um de Joaquim Costa. Datado de Agosto de 1959, é este último tido como o primeiro registo fonográfico de Rock ‘n’ Roll existente em Portugal[1]. As duas músicas, Tutti Frutti e Rip It Up, versões de dois dos maiores êxitos americanos da altura, demonstravam simultaneamente a apetência de alguns pelo novo e diferente, bem como o que se fazia ouvir por cá: Bill Haley, Elvis Presley, Little Richard, Gene Vincent e Chuck Berry.



[1] Reeditado pela Groovie Records / Meteorito, Lisboa, 2007, GRO 006/MD 001. Para mais informações sobre Joaquim Costa ver o insert que acompanha o disco.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” - Parte 2

1955-1959: "O Ritmo do Século"

Sob a égide de Salazar, e em plenos "anos de chumbo"[1], só o cinema conseguiria fazer entrar, colado discretamente às imagens, o novo som que se fazia na América. Foi através de filmes como Sementes de Violência[2] (1955), Rock, Rock, Rock (1956) e Uma Rapariga com Sorte[3] (1956) que o Rock 'n' Roll se fez ouvir e ver no Portugal dos fados e folclore. Era um novo ritmo, totalmente desconhecido dos portugueses, e como a tradução portuguesa do nome do filme Rock Around the Clock (1956) fez constatar, estava-se perante "O Ritmo do Século". Foi assim, através destes filmes, que se pôde ver as novas danças, as novas roupas, o novo estilo de vida para os jovens de então. Foi esta realidade ficcionada, projectada no ecrã, que trouxe as novidades do outro lado do oceano ao Portugal "orgulhosamente só".

Mas quando os barcos americanos atracavam nos portos portugueses, com os jovens marinheiros desembarcavam novos hábitos, e tudo se tornava real. Eram eles, que ao lado de jukeboxes, em bares e cabarés, cantavam e dançavam, tocavam ritmos nas suas guitarras que nada tinham a ver com o fado português. "Música de pretos", "a música do diabo"[4], como foi descrita imediatamente, mas que ainda assim, ou talvez por isso, não deixou de seduzir os jovens portugueses.



[1] Fernando Rosas, O Estado Novo (1926-1974), 7º vol. da Historia de Portugal (dirigida por José Mattoso, Circulo de Leitores, 1994

[2] No original Blackboard Jungle

[3] No original The Girl Can't Help It

[4] Entrevista do autor a Joaquim Costa em Outubro de 2007