sexta-feira, 1 de julho de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 24
O número elevado de bandas fez também com que se começassem a gerar reacções. Eram os anos de Paula Ribas e de Natércia Barreto e dos seus “Óculos de Sol” e o Dr. José Afonso acusava por isso o yé-yé de ser uma "moda sem valores intelectuais"[1]. Começava-se a registar uma grande ausência de novidade, em que uma banda copiava a outra, no som, na atitude, na maneira de vestir e de pentear. E todos copiavam os Beatles...
Foi nesta altura que Victor Gomes declarou o fim da música como até então se conhecia. O fim do twist, do ié-ié, do shake, do hully gully e a sobrevivência e baladas, como "Yesterday", "Michelle" e "Girl", dos Beatles, provavam isso. "Os jovens preferem ritmos mais lentos e moderados", alem de que "os empresários só contratam artistas já feitos e esgotam tudo a explorá-los", enquanto "a televisão é só para ver os mesmos artistas portugueses de sempre, ou estrangeiros, com nome ou sem nome, não interessa"[2]. O futuro, dizia ele, seria o jazz, o regresso à essência, à forma primitiva. Apocalíptico e visionário, Victor Gomes estava certo...
O ano dos concursos e festivais foi também o ano da proibição da transmissão de músicas dos Beatles e da denúncia de Francisco José num programa em directo de que a RTP pagava menos aos artistas nacionais do que aos internacionais. Foi também o ano do famoso whisky escocês feito em Sacavém, do peixe congelado de Henrique Tenreiro...
sábado, 12 de março de 2011
“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 11
Apesar de os instrumentos serem caros, recorrendo-se, por isso, às mais baratas guitarras Eko e a material feito em casa, inscreveram-se um surpreendente número de vinte e duas bandas, que desde o princípio da década se vinham a formar: Victor Gomes e os seus Gatos Negros, Nelo do Twist e seus Diabos, Electrónicos, Jets, Telstars, Eddy Gonzalez e os seus Ekos, Les Fanatics, Vendavais, Tigres, 3 Jotas, Os Titãs, Daniel Bacelar e os Gentlemen, S.O.S., Lisboa À Noite, Nova Onda, Sanremo 172, Napolitano, Panteras do Diabo, Jovens do Ritmo, Mascarilhas, Juventude Dinâmica e Condores.
"A iniciativa teve outra particularidade agradável: não houve êxtase de jovens contagiados na plateia, não houve distúrbios na sala"[1]... e mais votado pelo público foi Victor Gomes e os Gatos Negros mas pelo júri elegeu o Conjunto Mistério. Foram estes que, acompanhados por Fernando Pessa, passaram uma semana em Londres, actuando na BBC e na Casa de Portugal.
Nesse mesmo mês de Setembro foi também realizado o Festival Rock e Twist no Cinema Águia d'Ouro, no Porto, que contou com a presença de Armindo Rock. Entretanto, na ilha da Madeira já se tinha formado aquele que viria a ser um dos maiores fenómenos de popularidade destes anos, o Conjunto João Paulo. E ainda no continente, em Campo de Ourique, formou-se uma das mais prolíferas bandas portuguesas, os Ekos.
terça-feira, 8 de março de 2011
“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 10
Foi numa relação com o cinema que a música pop-rock conseguiu alguma credibilidade e se deu algum progresso. Os cinemas, novo espaço social que vinha a substituir os cafés como local de encontro e discussão, passaram a ser um dos locais de actuação ao vivo.
Quando a 13 de Setembro de 1963 estreia o filme Mocidade em Férias, de Peter Yates, no Cinema Roma, este é antecedido por um concerto de Victor Gomes - recém-chegado de África, e já eleito o do Rei do Twist num concurso do Teatro Monumental-, de Fernando Conde e os Electrónicos e de Nelo do Twist.
Foi neste mesmo cinema que durante esse mês e o seguinte se realizou o concurso de Conjuntos Portugueses do tipo dos Shadows em que "o conjunto eleito pelo voto do espectador terá direito, graças aos Estabelecimentos Valentim de Carvalho, a uma face de um disco comercial e o Conjunto escolhido pelo Júri a um disco comercial (2 faces) e ainda à apresentação pessoal aos Shadows, em Londres, para onde serão transportados em aviões dos TAP-BEA"[1].
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” – Parte 4
Mas o Rock 'n' Roll era mais do que um estilo de música. Era um estilo de vida, "era festa, era alegria, juventude"[1]. Despreocupado, por outro lado, revelava também a iliteracia dos jovens e a incapacidade de compreender outras línguas e, consequentemente, a essência de rebeldia desta novidade. Algo que, de resto, se vai traduzir sobretudo na inocuidade da maioria da música rock da geração seguinte.
Ainda assim, no Verão de 1959 assiste-se a um momento único de rebeldia "sem" causa associado imediatamente a este novo género musical. Nas zonas balneares de Sintra e Cascais um grupo de teddy-boys provoca desacatos, fura pneus, atira garrafas partidas para dentro de piscinas, expõe-se em cenas de nudez e é responsável por agressões físicas. Justa ou injustamente, a partir daqui qualquer acto de vandalismo passava a ser associado a teddy-boys e alguma animosidade foi conferida ao Rock 'n' Roll...
Mas Portugal não era só ponto de chegada mas também ponto de partida. A emigração, realidade portuguesa sobretudo a partir da década de 40, espalhava portugueses pelo mundo, mesmo além do território do império. Ainda nos anos 50, um jovem Victor Gomes dá então os seus primeiros passos em Angola e Moçambique, e é rapidamente eleito o Rei do Rock 'n' Roll. Nos Estados Unidos um "rockabilly cult cat" de nome Joe S. Alves grava dois singles em 1957, sob o nome de Portuguese Joe onde toca acompanhado pelos Tennessee Rockabillys. Personagem obscuro sobre ele, ainda hoje, nada se sabe. Victor Gomes, por seu lado, iria marcar a década seguinte e conseguir o seu lugar na história da música em Portugal...
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
“Ritmos Modernos da Nova Vaga: o rock em Portugal na década de 60” - Parte 1
Introdução
A história começa quando, ainda na década de 50, num país quase totalmente isolado e alheio a novidades exteriores, através do escuro do cinema, uma nova música se consegue insinuar: Rock ‘n’ Roll.
Então ignorada ou tida como brincadeira de miúdos, a década seguinte viria a revelar o contrário quando, através de múltiplas metamorfoses - Twist, Yé-Yé, Beat, Pop, Psicadélica e Progressiva -, a música feita por jovens conseguiu passar a ser considerada arte, entretenimento, e até mesmo ameaça política e social.
Histórias esquecidas de um país que nunca levou a sério a música, este artigo - originalmente publicado no catálogo da exposição “Nova Vaga” que esteve patente na Galeria da Câmara Municipal do Montijo em 2008 e que agora reproduzo com algumas correcções - pretende ser um breve panorama desses primeiros quinze anos de Rock 'n' Roll em Portugal.
Como tal são dignos de menção tanto os grandes eventos como as experiências pessoais, tanto as “principais” bandas como as de “menor relevo”. Desde os lisboetas Sheiks que conseguiram voar até Paris, aos Morcegos, de Olhão que conseguiram ir à capital participar no Grande Concurso de Yé-Yé do Teatro Monumental, passando pelos agrupamentos formados em terreno de guerra, como Os Kapas. Uns melhores, outros piores, o que interessa, e citando o mítico Victor Gomes, é que o som das guitarras eléctricas tenha ferido os ouvidos, "o público necessita-o. Aí está o interesse, o belo, o maravilhoso da música moderna."[1].
